Quando se fala em literatura americana contemporânea, David Foster Wallace (1962-2008) é um nome incontornável. Autor de romances megalomaníacos - como Graça Infinita (1996) e O rei pálido (2011) - e herdeiro autodeclarado de autores como Thomas Pynchon, John Barth e Don DeLillo, sua obra e seu projeto literário também influenciaram muitos de seus contemporâneos e sucessores, como Jonathan Franzen, Jeffrey Eugenides, Zadie Smith e Dave Eggers.
Mas qual é esse projeto? Em diversas de suas entrevistas e ensaios, ele parece ser atravessado pela ambição de "reafirmar a ideia de que a arte é uma transação viva entre humanos". Frente ao que Wallace enfatiza como marcas características da literatura de seu tempo - a metaficção (a ficção que fala de si mesma) e a ironia -, há um desejo anunciado de restaurar o elo entre o texto e a "vida real e vivida". Entre outras coisas, a restauração desse elo envolveria o entendimento de que a literatura deve não só diagnosticar os problemas de seu tempo, mas também redimi-los; não só demolir estruturas via paródia e ironia, mas também reivindicar seu papel moral e erguê-las. Mais do que isso, envolveria também a tarefa de evitar que a ficção se perdesse em seus duplos sentidos - para unir texto e vida, deve-se fazer uma ficção sincera.
Nos romances e contos do autor, no entanto, o desejo declarado de recuperar uma dimensão moral, séria e sincera da ficção convive com a natureza aparentemente oposta de seus procedimentos formais: a ironia, a metalinguagem, os duplos sentidos, as digressões complicadíssimas e as sentenças macarrônicas são traços onipresentes de sua ficção. Na obra de Wallace, o circuito da comunicação e da transmissão de informação nunca é transparente: a própria linguagem é opaca. O que uma retórica de sinceridade produz ao lado disso? Parece ser precisamente à transparência que almeja a ideia de uma ficção sincera, que é concebida, em primeiro lugar, como comunicação efetiva entre autor e leitor - transação viva entre humanos. Neste curso introdutório, propomos apresentar e discutir a obra do autor justamente ao nos aprofundarmos nessa contradição.
Em um primeiro momento, nos familiarizaremos com o projeto literário de Wallace por meio de trechos selecionados de seus ensaios e entrevistas. Em seguida, discutiremos como esse projeto reaparece, com algum ruído, no conto 'Octeto', da coletânea Breves Entrevistas com Homens Hediondos - no qual figura um escritor de ficção que diz querer escrever algo "sincero". Em especial, nos interessa pavimentar o caminho para pensarmos em conjunto na pergunta: o que está em jogo na oposição entre texto e "vida real e vivida", entre mediação e transparência, entre manipulação e sinceridade?
Cronograma
Aula 1 (02/03) – Introdução ao curso e a David Foster Wallace
Aula 2 (03/03) – O projeto literário de David Foster Wallace
Aula 3 (04/03) – A ambiguidade de ‘Octeto’
Aula 4 (05/03) – A sinceridade em ‘Octeto’
Bibliografia geral
BURN, Stephen J. (Org.). Um antídoto contra a solidão: conversas com David Foster Wallace. Tradução de Sarah Grünhagen e Caetano W. Galindo. Belo Horizonte: Âyiné, 2021.
DAWSON, Paul. O retorno da onisciência na ficção contemporânea. In: Revera - Escritos de criação literária, v. 5, p. 42-70, 2020.
KELLY, Adam. David Foster Wallace and the New Sincerity in American Fiction. In: Consider David Foster Wallace: Critical Essays. Sideshow Media Group Press, 2010, pp. 131-46.
WALLACE, David Foster. Fictional futures and the conspicuously young. In: Review of Contemporary Fiction, v. 8, n. 3, p. 36–53, 1988.
WALLACE, David Foster. Octeto. In: Breves entrevistas com homens hediondos. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2019.
WALLACE, David Foster. Joseph Frank’s Dostoyevsky. In: Consider the lobster and other essays. New York: Little, 2005. p. 255–274.
WINNINGHAM, Thomas. “Author Here”: David Foster Wallace and the Post-metafictional Paradox. In: Critique: Studies in Contemporary Fiction, v. 56, n. 5, p. 467-479, 2015.

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