Programa

Aula 1: Mudanças climáticas e turismo
A relação entre mudanças climáticas e turismo é complexa e ainda pouco estudada no Brasil. Esta relação envolve impactos do turismo na poluição atmosférica, por um lado, e, por outro, impactos das mudanças climáticas sobre o turismo em geral. Entretanto, é preciso superar essa relação de causa e efeito e analisar a complexa trama que envolve, por exemplo, a urbanização para o turismo, a segregação socioespacial, a privatização da planície costeira e os desdobramentos desses processos no aumento do risco social a que as classes populares são submetidas quando moradores de localidades em que o turismo é uma atividade economicamente relevante. Diante do exposto, esta aula tem por objetivo analisar criticamente a participação do turismo na produção de riscos sociais em tempos de mudanças climáticas.
Duração: 3 horas.
Bibliografia:
Cruz, R. C. A. da; Todesco, C.; Grim, I.; Fogaça, I. Mudanças Climáticas e turismo. Editora da FFLCH, 2025. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/16…
Carlos,A.F.A.(2020).Segregaçãosocioespacialeo”DireitoàCidade”.GEOUSP
Espaço e Tempo (Online), 24(3), 412-424.
Gil, J., Marques, N. R. & Andrade, G. N. (2023), Agenda climática e o turismo
no Brasil: contribuições para políticas públicas de adaptação frente às mudanças climáticas, Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, 17, 1-14.
Grimm, I. J., & Sampaio, C. A. C. (2017). Crise ambiental, política climática e o turismo: algumas reflexões. Revista Brasileira De Ciências Ambientais, 44, 95–112. https://doi.org/10.5327/Z2176-947820170164.
Grimm, I. J., Prado, L. R., Giacomitti, R. B., & Mendonça, F. A. (2012). Mudanças Climáticas e o Turismo: desafios e possibilidades. Revista Brasileira De Climatologia, 11. https://doi.org/10.5380/abclima.v11i0.29717
Macedo, E. S. de & Sandre, L. H. (2022), Mortes por deslizamentos no Brasil: 1988 a 2022. Revista Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental, 12(1), 110-117.

Aula 2: Turismo Global em tempos de Neoliberalismo e de Financeirização
O turismo, como atividade econômica de grande relevância para a acumulação de capital no mundo atual, é parte e ao mesmo tempo um produto das lógicas dominantes do capitalismo global. Em linhas gerais, o objetivo desta aula é abordar o avanço do neoliberalismo e da financeirização sobre e pelo turismo, considerando a articulação entre as dimensões Estado, capital e trabalho. Serão tratadas questões como: (i) as mudanças nas formas de operação das empresas turísticas e a natureza de atuação do Estado nos quadros do neoliberalismo; (ii) os processos de expansão das corporações turísticas transnacionais para a América Latina e as suas relações com a exploração do trabalho; (iii) o surgimento de novas tipologias de produtos turísticos como tendência do pós-fordismo; e (iv) o avanço do processo de financeirização no turismo por instrumentos financeiros na produção e na reprodução de empreendimentos turísticos. Nesta aula, o neoliberalismo e a financeirização serão colocados em perspectiva para analisar o fenômeno turístico contemporâneo em seus processos de desenvolvimento à luz da crítica à economia política do turismo, buscando enfatizar as formas de organização, desenvolvimento e extração de lucros e rendas a partir da atividade turística global.
Duração: 3 horas.
Bibliografia:
ARTIGUES, Antoni; BLÀZQUEZ, Macià. Empresas Multinacionales Turísticas. In: CAÑADA, Ernest; MURRAY, Ivan. Turistificación Global: perspectivas críticas en turismo. Barcelona: AlbaSud, 2019.
BIANCHI, Raoul. The political economy of tourism development: A critical review. Annals of Tourism Research, v. 70, 2017. https://doi.org/10.1016/j.annals.2017.08.005
CAÑADA, Ernest; MURRAY, Ivan. Introducción: perspectivas críticas en turismo. In: CAÑADA, E.; MURRAY, I. Turistificación Global: perspectivas críticas en turismo. Barcelona: AlbaSud, 2019.
DUFFY, Rosaleen. The international political economy of tourism and the neoliberalisation of nature: Challenges posed by selling close interactions with animals. Review of International Political Economy, v. 20, n. 3, 2012. https://www.jstor.org/stable/42003325
FLETCHER, Robert. Neoliberalismo y turismo. In: CAÑADA, Ernest; MURRAY, Ivan. Turistificación Global: perspectivas críticas en turismo. Barcelona: AlbaSud, 2019.
HARVEY, David. O Neoliberalismo: História e Implicações. 5. ed. São Paulo: Loyola, 2014.
IOANNIDES, Dimitri.; DEBBAGE, Keith. Post-Fordism and flexibility: the travel industry polyglot. Tourism Management, v. 18, n. 4, 1997. https://doi.org/10.1016/S0261-5177(97)00019-8
MOSEDALE, Jan. Neoliberalism and the political economy of tourism. New York: Routledge, 2016.
YRIGOY, Ismael. Financialization of hotel corporations in Spain. Tourism Geographies, v. 18, n. 4, 2016. https://doi.org/10.1080/14616688.2016.1198829

Aula 3: Turismo como estratégia de soft power na geopolítica contemporânea
O conceito de soft power está associado aos meios de obtenção de poder no sistema internacional por meio de estratégias não bélicas. Com o crescente consumo dos espaços pelo turismo e a mercantilização das cidades, essas estratégias se estendem para a atividade turística como meio de promoção internacional da nação. Nesta aula será discutido como o turismo vem sendo utilizado estrategicamente para construção de uma imagem/marca nacional, especialmente por meio de megaeventos esportivos.
Duração: 3 horas
Bibliografia:
CHEN, Y.-W. e DUGGAN, N. (2016) 'Soft power and tourism: a study of Chinese outbound tourism to Africa', Journal of China and International Relations, 4(1), pp. 45-66. doi: 10.5278/ojs.jcir.v4i1.1514
GRIX, J.; LEE, D. (2013) Soft Power, Sports Mega-Events and Emerging States: The Lure of the Politics of Attraction, Global Society, 27:4, 521-536, DOI: 10.1080/13600826.2013.827632
LEE, C.; TAYLOR, T.; LEE, Yong-Ki; LEE, Bongkoo (2005) The Impact of a Sport Mega-Event on Destination Image, International Journal of Hospitality & Tourism Administration, 6:3, 27-45, DOI: 10.1300/J149v06n03_03
VAINER, C. B. Como serão nossas cidades após a Copa e as Olimpíadas?. In: JENNINGS, A. et al. Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Boitempo Editorial, 2014.

Aula 4: Turismo e patrimônio no mundo contemporâneo
A relação entre o turismo e o patrimônio é fortemente consolidada na sociedade contemporânea. No entanto, ao se tornar um objeto de consumo do turismo, o patrimônio e a patrimonialização comumente passam a ser orientados pela lógica de mercado e submetidos a interesses capitalistas neoliberais. Nesta aula serão discutidos os sentidos atribuídos ao termo “patrimônio”, a construção de sua relação com o turismo e seus desdobramentos no mundo contemporâneo.
Duração: 3 horas
Bibliografia:
CARLOS, Ana Fani Alessandri. Turismo e patrimônio: um aporte geográfico. In: PAES, Maria Tereza Duarte; SOTRATTI, Marcelo Antonio (orgs.). Geografia, turismo e patrimônio cultural: identidades, usos e ideologias. São Paulo: Annablume, p. 27-43, 2017.
DEGALDILLO, Victor. Patrimonio urbano, turismo y gentrificación. In: DEGALDILLO, V.; DIAZ, I.; SALINAS, L. Perspectivas de la gentrificación em Mexico y America Latina. Mexico: Unam, p. 113-132, 2015.
MENESES, Ulpiano. O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas. 1o Fórum Nacional de Patrimônio Cultural, v. 1, p. 25-39, 2009.
SCIFONI, Simone. A construção do patrimônio natural. Tese (Doutorado em Geografia) − Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas -USP, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006. p. 11-18 e p. 26-52.

Aula 5: O turismo no regime global de (i)mobilidades
Se ao longo do século XX o mundo assistiu ao desenvolvimento tecnológico e transformações socioeconômicas que permitiram a expansão contínua do turismo moderno, também é visível acesso desigual às possibilidades de práticas turísticas e os benefícios a elas associados. Ademais, a crise climática e a expansão expressiva dos fluxos em escala global impõem outras camadas de reflexão e ação em termos conceituais e políticos. Nesse sentido, o debate sobre o turismo exige trazer para discussão conceitos sobre mobilidades justas e regimes de mobilidades, reconhecendo que o acesso e os desdobramentos para as mobilidades turísticas implicam em trocas desiguais e, quase sempre, reforço das iniquidades. O estudo do turismo pela perspectiva da “virada das mobilidades” implica um olhar interdisciplinar, com vistas a combinar abordagens teóricas e, ao mesmo tempo, desenvolver ou aprimorar aplicações metodológicas pertinentes - no marco do que vem sendo chamado de “método móveis””
Duração: 3 horas.
Bibliografia:
ALLIS, T., MORAES, C. M. dos S., SHELLER, M. Revisitando as mobilidades turísticas. Revista Turismo em Análise, v. 31, n. 2, p. 271-295. 2020 https://doi.org/10.11606/issn.1984-4867.v31i2p271-295
BIANCHI, R. V., STEPHENSON, M. L., HANNAM, K. The contradictory politics of the right to travel: mobilities, borders & tourism. Mobilities, vol. 15, n. 2, p. 290–306, 2020. https://doi.org/10.1080/17450101.2020.1723251
COHEN, E. Mobility Regimes, Subversive Mobilities, and Tourism. Tourism Analysis, Vol. 26, n. 1, p. 91-103, 2021. https://doi.org/10.3727/108354220X15972821930657
MILANO, C., KOENS, K., & RUSSO, A. P. (2024). The politics of urban tourism (im)mobilities: Critical perspectives on inequalities and social justice. Cities, v. 152, 105148, 2024. https://doi.org/10.1016/j.cities.2024.105148
SHELLER, M. Theorising mobility justice. Tempo Social, v. 30, n. 2, p. 17-34, 2018. https://doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2018.142763