Programa

Publicado em 1981, The Political Unconscious: Narrative as a Socially Symbolic Act tem a forma de um método de leitura e o escopo de uma filosofia da história. A perspectiva política é definida, logo no primeiro capítulo, como "the absolute horizon of all reading and all interpretation" ("o horizonte absoluto de toda leitura e de toda interpretação"; JAMESON, 1981, p. 17, trad. nossa); poucas linhas adiante, a tese se radicaliza: "everything is 'in the last analysis' political" ("tudo é, em última análise, político"; JAMESON, 1981, p. 20, trad. nossa). O peso recai sobre uma palavra: horizonte. A história, inacessível em sua imediatez, deixa marcas em cada obra cultural — marcas do que a produziu e do que ela tenta resolver imaginariamente. A intervenção de Jameson é dupla. Por um lado, ele confronta os métodos de interpretação dominantes na década de 1970 — psicanálise, pós-estruturalismo, desconstrução — para reescrevê-los como momentos parciais de uma hermenêutica dialética mais ampla, capaz de articulá-los entre si. Por outro, retoma as categorias da tradição marxista lukacsiana — totalidade (a sociedade como um todo articulado), mediação (a relação entre os planos econômico, político e cultural), reificação (a transformação de relações sociais em coisas) e transcodificação (a tradução entre vocabulários teóricos distintos sob uma só linguagem analítica) — sob o argumento de que são as únicas a articular planos heterogêneos do todo social. E faz isso numa conjuntura em que falar de política havia virado constrangimento e falar de totalidade soava como ameaça autoritária. A forma artística é apreendida, nesse arranjo, como ato socialmente simbólico: "the imaginary resolution of a real contradiction" ("a resolução imaginária de uma contradição real"; JAMESON, 1981, p. 77, trad. nossa). Quer dizer: cada obra trabalha, em sua própria forma, contradições históricas concretas que ela tenta apaziguar imaginariamente, mesmo quando o enredo não as tematiza. Essa tese ganha dimensão nova quando a própria análise crítica passa a se realizar dentro da engrenagem econômica que ela pretende mapear. Pluribus (Gilligan, 2025), série distribuída pela Apple TV+, é o caso em que o curso testa essa coincidência: uma obra que critica a plataforma que a vende. Não há posição exterior à mercadoria de onde a crítica possa se exercer hoje — e é essa contradição que organiza nossa proposta. Daí as duas apostas que percorrem o curso, ambas extraídas da conclusão de Jameson: a dupla hermenêutica — a leitura crítica precisa funcionar simultaneamente como desmascaramento da ideologia e como reconhecimento do impulso utópico que mesmo o objeto carrega — e a radicalização imanente do que o próprio livro de 1981 já enuncia sob o nome de transcodificação — o uso de uma única linguagem analítica para ler conjuntamente a obra cultural e a engrenagem material que a produz.

Metodologia
As aulas pressupõem leitura prévia das obrigatórias e combinam exposição teórica, leitura cerrada de passagens decisivas dessas leituras e debate dirigido a partir de questões previamente formuladas. Os participantes são convidados a tensionar os conceitos contra problemas das próprias pesquisas ou contra outros objetos culturais que considerem produtivos para o exercício do método.

Público-alvo
O curso é aberto a qualquer pessoa com interesse em teoria crítica e cultura contemporânea, independentemente de formação acadêmica. A familiaridade com os fundamentos do pensamento materialista e com a teoria literária do século XX facilita o acompanhamento, mas não é condição de entrada — os conceitos centrais são reconstruídos ao longo das aulas. Recomenda-se, contudo, que os participantes assistam previamente à primeira temporada de Pluribus e façam as leituras obrigatórias antes de cada aula.

Conteúdo
Aula 1: O Programa Hermenêutico — Marxismo como Horizonte Absoluto
Aula 2: Os Três Horizontes Interpretativos — Texto, Ideologema, Ideologia da Forma
Aula 3: A Crítica em Funcionamento — Realismo, Ressentimento e Modernismo em Balzac, Gissing e Conrad
Aula 4: Pluribus I — Felicidade Administrada, Ressentimento Reformulado e o Ideologema da Singularidade
Aula 5: Pluribus II — Ideologia da Forma e Jameson, Apesar de Tudo

Bibliografia:
ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
GILLIGAN, Vince (criador). Pluribus. Apple TV+, 2025. Primeira temporada, 9 episódios.
JAMESON, Fredric. The Political Unconscious: Narrative as a Socially Symbolic Act. Ithaca: Cornell University Press, 1981.
JAMESON, Fredric. O Inconsciente Político: a narrativa como ato socialmente simbólico. Tradução de Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Ática, 1992.
JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Tradução de Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 1996.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.