Programa do curso
(i) Metodologias Ativas no ensino de Gramática
A “Aprendizagem ativa” inclui atividades pedagógicas em que os estudantes assumem o protagonismo do processo de aprendizagem, realizando atividades significativas, que os engajam e os levam à reflexão, a partir de conceitos advindos da Linguística e que se vinculam a princípios das ciências cognitivas. A sentença é ponto de partida para o desenvolvimento de competências linguísticas complexas. A Gramaticoteca (https://gramaticoteca.unb.br/) tem produzido materiais educativos nas últimas duas décadas.
(ii) Adjetivos
A definição “palavra que caracteriza o substantivo” é superficial e insuficiente para dar conta dos usos na nossa língua. Há adjetivos que funcionam como predicado sentencial (“O céu está azul”) e os atributivos, que fazem parte do sujeito ou objeto (“Eu vi o céu azul”). Alguns adjetivos atributivos aparecem em duas posições, com interessante mudança de significado (“A pobre moça é podre de rica, e por isso vítima de interesseiros” versus “A moça pobre passa fome”). Certos adjetivos admitem gradação (como “alto”, “quente”) e outros não (como “verde”, “morto”). Há adjetivos expressivos, que podem entrar em exclamações (“Que lindo!”), enquanto outros não (* “Que triangular!”) Conectando forma, posição e significado de maneira integrada, dá para superar o ensino fragmentado desses aspectos.
(iii) Quantidade nominal e massivo/contável ou indefinidos
A oposição singular/plural, examinando a palavra em isolamento, quanto à morfologia de número, não dá conta da interpretação da quantidade nominal, que é complexa e rica. Não importa apenas a presença ou ausência de morfema plural, mas o número é produto de mais outros três fatores: (i) o tipo de sentença (episódica ou genérica), (ii) a estrutura sintática do sintagma nominal (nome nu ou sintagma de determinante), (iii) o fato de o nome ser massivo ou contável. O próprio -s de plural não é acieto por todo e qualquer substantivo. É necessário o exame da sentença inteira, levando em conta todas essas variáveis, para determinar a interpretação do sintagma nominal. Há também leituras de volume (“Bebi mais leite hoje que ontem”), de abundância (“O navio entrou nas águas da Guanabara”), de intensidade (“Está fazendo muito sol!”).
(iv) Determinantes/quantificação nominal
A língua portuguesa tem nomes nus como sujeito ou objeto (“Comprei maçã”) e também objetos bem longos “Ele leu todos os meus muito ingênuos e românticos poemas de amor da juventude”). Há muitas escolhas a fazer: definidos ou indefinidos (“Vi o aluno hoje” ou “Vi um aluno hoje”?; “Algum aluno esteve aqui” ou “Um aluno esteve aqui”?), universais distributivos (“Cada criança ganhou um bombom”, “Toda criança ganhou um bombom”) ou de livre escolha (“Pode comer qualquer bombom desta caixa”).
(v) Aspecto Verbal
O tempo linguístico são apenas passado, presente e futuro, e há tantos paradigmas de conjugação verbal – presente do indicativo, pretérito perfeito, futuro do pretérito... um verbo conjugado no presente do indicativo pode expressar tempo futuro (“Eu viajo amanhã”). Como operar com isso? Além disso, temos o aspecto gramatical ou de ponto de vista (“Ela atravessava a rua quando”... versus “Ela atravessou a rua”) e as classes acionais, que são as divisões dos predicados verbais segundo algumas propriedades no modo de apresentar a situação.
(vi) Modalidade
A modalidade pode ser expressa nas línguas humanas por diversas categorias lexicais, tais como: verbos (“Ele deve estar em casa”), sintagmas adjetivais (“Eu estou certo de que ele está em casa agora”), advérbios (“Certamente ele está em casa”), morfemas (“Esta garrafa é descartável”), construções impessoais (“Deve haver um posto de gasolina por perto”) e sentenças condicionais (“Se ele estiver em casa, fica tudo resolvido”). Há modalidades deônticas, desiderativas/ buléticas, teleológicas, epistêmicas etc. A modalidade fornece recursos linguísticos para criarmos alternativas à realidade nua e crua.
(vii) Advérbios
Tradicionalmente lembrados como modificadores verbais, advérbios também modificam adjetivos (“bem forte”), outros advérbios (“bem perto daqui) e substantivos (“muitos problemas”). Há advérbios de frequência (“nunca”, “sempre”, “raramente” etc.), de tempo (“às 14horas”, “ontem”), de lugar (“aqui”, “lá” etc.), de atos de fala (“Infelizmente, não vou poder”), de maneira (“Ele cozinha muito bem”), de campo semântico ( “Botanicamente, a favela é uma árvore”)...Para dar conta da imensa variedade de funções e interpretações dessa vasta categoria, precisamos de critérios que ponham ordem na casa.
Atividades dos alunos:
Um texto para leitura será fornecido anteriormente a cada encontro (são seis textos no total, em todo o curso). Os textos serão extraídos da bibliografia básica e servirão de fio condutor para os debates, após as apresentações dos especialistas. Cada participante receberá uma ficha da atividade a ser desenhada por ele, com os materiais criados por ele durante o encontro. Essa ficha deve ser preenchida e entregue ao final do dia.
com objetivos verificação inicial e verificação final das
Bibliografia Básica
QUADROS GOMES, Ana Paula (Org.). Explorando o significado em sala de aula. 1. ed. Campinas: Pontes editores, 2023. v. 1. Disponível em: https://ponteseditores.com.br/loja3/pontes-editores-home-2__trashed/ebo…-
de-aula/
MÜLLER, A.; MARTINS, N. P. (Orgs.) Ensino de Gramática: reflexões sobre a semântica do português brasileiro. Campinas: Pontes, 2021. Disponivel em /https://sce.fflch.usp.br/sites/sce.fflch.usp.br/files/Ensino_Gramatica%…
MÜLLER, A.; PARAGUASSU MARTINS, N. (Orgs.) Ensino de gramática: reflexões sobre a semântica do português brasileiro. Campinas, SP: Pontes Editores, 2024. Volume II. Diponível em https://ponteseditores.com.br/loja3/pontes-editores-home 2__trashed/ebook/lancamento-e-book/ensino-de-gramatica-reflexoes-sobre-a-semantica-do-portugues-brasileiro-volume-ii/
da SILVA, Fernanda Rosa; de PAULA, Mayara Nicolau; e FERREIRA, Luiz Fernando. (Orgs.) Novas perspectivas para o ensino de Língua Portuguesa: reflexões sobre ensino de gramática e teorias linguísticas. Pontes Editores. Campinas, SP. 2025. Disponível em: https://ponteseditores.com.br/loja3/pontes-editores-home-2__trashed/ebo…
Obras de referência
BASSO, Renato Miguel; DE OLIVEIRA, Roberta Pires. Feynman, a linguística e a curiosidade, revisitado. Matraga-Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ, v. 19, n. 30, 2012.
BERTUCCI, R. A. Questões semânticas sobre tempo e aspecto em português brasileiro. Cadernos do IL, n. 52, p. 65-89, 2016.
MÜLLER, A.; MARTINS, N. P. (org.). Ensino de gramática: reflexões sobre a semântica do português brasileiro. Campinas: Pontes Editores, 2021.
BORGES NETO, J. Ensinar gramática na escola? ReVEL, edição especial n. 7, 2013.BASSO, Renato Miguel; DE OLIVEIRA, Roberta Pires. Feynman, a linguística e a curiosidade, revisitado. Matraga-Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da
UERJ, v. 19, n. 30, 2012.
BORGES NETO, J. Ensinar gramática na escola? ReVEL, edição especial n. 7, 2013.
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, SEF, 2017. Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofin…. Acesso em: 2 fev. 2025.
BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Brasília: MEC/GF, 2002.
Disponível em http://portal.mec.gov.br/conaes-comissao-nacional-deavaliacao-da-educac… Acesso em 2 ago. 2022
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental.. Parâmetros Curriculares Nacionais – Língua Portuguesa. Brasília: SEF, 1997.
Disponível em: https://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/pcn/livro02.pdf. Acesso em: 2 ago. 2022
CARVALHO, B. C.; FLUD, I.; MEZZARI, P. A.; PIRES DE OLIVEIRA, R. A semântica formal no chão da escola: os mundos possíveis na sala de aula. ReVEL, v. 19, n. 37, 2021 Disponível em
https://www.revel.inf.br/files/d6d5dbc773cae2da788e0480824adc3d.pdf. Acesso em 23 out. 2025.
COSTA, J. Gramática Formal e Ensino: uma entrevista com João Costa. ReVEL, v. 19, n. 37, 2021.
DE OLIVEIRA, Roberta Pires; SOUZA, Sweder; IZABEL LIMA, Lorena. Gramática, Escola e Perspectivas do Ensino de Gramática da Língua Portuguesa na Contemporaneidade: uma Entrevista com Roberta Pires de Oliveira (Ufsc/Ufpr/Cnpq). Entrelinhas, v. 12, n. 2, 2018.
FOLTRAN, M. J. Ensino de sintaxe: atando as pontas. In: MARTINS, M. A. (org.) Gramática e ensino. Natal: EDUFRN, 2013. pp. 163-84.
FRANCHI, C. Mas o que é mesmo “gramática”? In: POSSENTI, S. (Org.). Mas o que é mesmo “gramática”? São Paulo: Parábola, 2006. p. 11-101
FRANCHI, Carlos. Criatividade e gramática. Trabalhos em linguística aplicada, v. 9, n. 1, p. 5-45, 1987.
FRANCHI, Carlos; NEGRÃO, Esmeralda Vailati; MÜLLER, Ana Lúcia. O Uso das Relações Semânticas na Análise Gramatical. In: POSSENTI, S. (Org.). Mas o que é mesmo a “gramática”?. São Paulo: Parábola, 2006, p. 102-125.
FRANCHI, Carlos; NEGRÃO, Esmeralda Vailati; MÜLLER, Ana Lúcia. Um exemplo de análise e de argumentação em Sintaxe. Revista da ANPOLL, v. 2, n. 5, 1998. Disponível em: https://anpoll.emnuvens.com.br/revista/article/view/302. Acesso
em: 13 abr. 2024.
GERALDI, João Wanderley et al. O texto na sala de aula. Cascavel: Assoeste, 1984
GOMES, A. Q.; SANCHEZ-MENDES, L. Para conhecer: Semântica. São Paulo: Contexto, 2018.
ILARI, Rodolfo. Introdução ao estudo do léxico. Brincando com as palavras. São Paulo: Contexto, 2001
ILARI, Rodolfo. Linguística e ensino da Língua Portuguesa como língua materna.
KENEDY, E. Possíveis contribuições da linguística gerativa à formação do professor de língua portuguesa. Revista de Letras
(UFC), n. 32. pp. 72-9, 2013.
LEMLE, Miriam. Guia teórico do alfabetizador. 17 ed. Ed. Ática, 2009.
LOBATO, Lúcia. O que o professor de ensino básico deve saber sobre linguística [2003]. In: PILATI, E. N. S., NAVES, R. R.,
VICENTE, H. G., LIMA-SALLES, H. M. M. Linguística e ensino de línguas. Editora UnB, Brasília (DF), 2015, p. 14-31.
MÜLLER, A.; PARAGUASSU MARTINS, N. (orgs.) Ensino de gramática: reflexões sobre a semântica do português brasileiro. Campinas, SP: Pontes Editores, 2022. Volume I.
MÜLLER, Ana. Semântica na Escola. Campinas: Curt Nimuendajú, 2020
OLIVEIRA, Roberta Pires de. Theoretical outlines: a history of thirty years of semantics in Brazil. DELTA: Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada, v. 15, n. SPE, p. 291321, 1999.
PILATI, E. Aprendizagem Linguística Ativa: da teoria à gramaticoteca. Campinas: Pontes Editores, 2024a.
PILATI, E. Linguística, gramática e aprendizagem ativa. Campinas: Pontes 2017.
PILATI, Eloisa et al. Consciência metalinguística, ensino e aprendizagem de línguas. Gramática em Foco, 2024.
PIRES DE OLIVEIRA, Roberta; QUAREZEMIN, Sandra (Orgs.). Artefatos em gramática: ideias para aulas de língua. Florianópolis: DLLV/CCE/UFSC, 2020.
PIRES DE OLIVEIRA, Roberta; QUAREZEMIN, Sandra. Gramáticas na escola. Petrópolis: Vozes, 2016.
PIRES DE OLIVEIRA, Roberta;QUAREZEMIN, Sandra Gramáticas na escola Petrópolis: Vozes, 2016, p.184p.
QUADROS GOMES, Ana Paula. Contribuições da semântica formal para o ensino de língua materna: a quantidade nominal. Revista Linguística, v. 16, p. 250-279, 2020
ROEPPER, T.; MAIA, M.; PILATI, E. Experimentando linguística na escola: conhecimento gramatical, leitura e escrita. Campinas; Pontes Editores, 2021.
SANCHEZ-MENDES, Luciana. Contribuições da Semântica Formal para a investigação de sintagmas nominais do português em sala de aula. Revista Linguíʃtica, v. 17, n. 2, p. 254-269, 2021. São Paulo: Museu da Língua Portuguesa, 2009. Disponível em: https://museudalinguaportuguesa.org.br/wp-
content/uploads/2017/09/ENSINO-COMO-LINGUA-MATERNA.pdf cl visitado em 20/12/2024.
SOUZA, E. A. (Im)perfectividade, acionalidade e ensino: usando noções de Semântica Formal. Caderno Linguístico, v. 5, n. 2,2024.
TESCARI NETO, Aquiles . Gramática e formação de professores de Língua Portuguesa. Editora da Unicamp. 2025.
TESCARI NETO, A.; PERIGRINO, M. O verbo e o substantivo em livros didáticos: contribuições da gramática gerativa às aulas de português. Revista da ABRALIN, v. 17, n. 1, 2019.
VICENTE, Helena Guerra; PILATI, Eloisa. Teoria Gerativa e “ensino” de gramática: uma releitura dos Parâmetros Curriculares Nacionais. VERBUM. Cadernos De Pós-Graduação. n. 2, p. 4-14, 2012.

.png)
