Programa

Ministrante: Núbia Aguilar

Apresentação:
O curso tem como objetivo promover uma análise reflexiva da produção literária de Chinua Achebe, autor nigeriano de destaque na consolidação das literaturas africanas. Sua obra oferece perspectivas que se contrapõem a narrativas coloniais e eurocêntricas ao privilegiar elementos locais da organização social do povo igbo. A proposta articula História e Literatura e estabelece diálogo direto com a Lei nº 10.639/03, instigando debates que podem auxiliar no ensino e na elaboração de interpretações críticas sobre o material em foco. Ao longo dos encontros, será desenvolvido um estudo coletivo de três obras de Achebe: O mundo se despedaça (Things Fall Apart), A paz dura pouco (No Longer at Ease) e A flecha de Deus (Arrow of God). As discussões partirão da análise da construção das narrativas, considerando o uso de recursos linguísticos, a organização do enredo e a recorrência de temas como o colonialismo, as relações de gênero e outras dimensões sociais representadas nos textos. Diante das leituras indicadas para cada encontro, os debates buscarão situar essas obras em seus respectivos contextos históricos de produção, para incentivar reflexões sobre as epistemologias coloniais que, historicamente, contribuíram para a construção de representações essencializantes e estáticas acerca de grupos e indivíduos do continente africano. Para atender à proposta, serão destacados saberes locais mobilizados nas obras, bem como os procedimentos narrativos e discursivos empregados por Achebe na organização de sua escrita. Embora o colonialismo constitua um eixo analítico fundamental para a interpretação dos romances selecionados, ele será compreendido como parte de uma conjuntura histórica mais ampla. Serão abordadas as dimensões materiais e simbólicas, mobilizando valores, práticas e representações presentes nos romances. Essa abordagem possibilita compreender como diferentes camadas se cruzam para a composição das narrativas e como o colonialismo deixou marcas duradouras, influenciando, ainda hoje, diversas narrativas sobre o continente africano.
O curso destina-se a pessoas interessadas em aprofundar seus conhecimentos sobre as literaturas africanas, em particular sobre a obra de Chinua Achebe, e caracteriza-se pela interdisciplinariedade, possibilitando a construção de reflexões coletivas, que estejam comprometidas com o enfrentamento dos resquícios coloniais que ainda sustentam abordagens reducionistas e eurocêntricas.

Metodologia: Discussões expositivas, com o uso de recursos didáticos, como a apresentação de slides, para dar encaminhamento aos debates propostos. Os certificados serão garantidos mediante frequência nos encontros.

Número de encontros: 4.
Carga horária: 12 horas.
Dia e horário: Sábado - 9h a 12h.
Datas: 02/05; 09/05; 16/05; 23/05

Aula 1: Apresentação de Chinua Achebe - um primeiro olhar entre texto e contexto
Leitura indicada: ACHEBE, Chinua. A educação de uma criança sob o protetorado britânico: ensaios. Trad. Isa Mara Lando. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. pp. 13-43.
Leituras complementares: MCCLINTOCK, Anne. A família branca do homem. O discurso colonial e a reinvenção do patriarcado. In.: Couro imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Campinas: Editora da UNICAMP, 2010. pp. 341-376.
ACHEBE, Chinua. An Image of Africa: Racism in Conrad’s Heart of Darkness. The Massachusetts Review, v. 57, n. 1, p. 14-27, Spring 2016.

Aula 2: O mundo se despedaça - possibilidade interpretativa do colonialismo
Leitura indicada: ACHEBE, Chinua. O mundo se despedaça. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Capítulos: 2; 7; 11;16; 17.
Leitura complementar: FANON, Frantz. Sobre a violência. In.: Os condenados da terra. São Paulo: Zahar, 2022. pp.29-101.

Aula 3: A flecha de Deus - o sujeito colonial e o sujeito colonizado
Leitura indicada: ACHEBE, Chinua. A flecha de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Capítulos: 1;3; 8;10; 15.
Leitura complementar: MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido de Retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. pp.33-52/ 113-159.

Aula 4:A paz dura pouco - “Para quando a África”?
Leitura indicada: ACHEBE, Chinua. A paz dura pouco. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. Capítulos: 1; 6; 7;11; 14; 17.
Leitura complementar: KI-ZERBO, Joseph. Para quando a África? Entrevista com René Holenstein. São Paulo: Pallas, 2006. pp. 61-83.

Bibliografia complementar:
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
AGUILAR, Núbia. África do Sul pelas reminiscências de Coetzee. Via Atlântica, São Paulo, v. 25, n. 1, 2024, p. 248-277.
APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
BARBOSA, Muryatan. A razão africana: breve história do pensamento africano contemporâneo. São Paulo: Todavia, 2020.
CHAVES, Rita. Angola e Moçambique: experiência colonial e territórios literários. São Paulo: Ateliê Editorial, 2022.
CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. São Paulo: Veneta, 2020.
COOPER, Frederick. História da África, Capitalismo, Modernidade e Globalização. Lisboa: Edições 70, 2016.
FALOLA, Toyin. O poder das culturas africanas. Petrópolis: Editora Vozes, 2020.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
HAMPÂTÉ BÂ, Amadou. A tradição viva. In: KI-ZERBO, Joseph (org.). História geral da África. Vol. I: Metodologia e pré-história da África. Brasília: UNESCO, 2010. p. 167‑212.
HARTMAN, Saidiya. Perder a mãe: uma jornada pela rota atlântica da escravidão. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
HERNANDEZ, Leila Leite; MARCUSSI, Alexandre Almeida (org.). Ideias e práticas em trânsito: poderes e resistências em África (séculos XIX-XX). São Paulo: Intermeios, 2020.
MACEDO, Tania Celestino de. Da voz quase silenciada à consciência da subalternidade: a literatura de autoria feminina em países africanos de língua oficial portuguesa. Mulemba, v. 1, n. jan./jun. 2010, p. 4–13.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
MATA, Inocência. A crítica literária africana e os seus paradigmas. Via Atlântica, São Paulo, n. 8, 2005, p. 11–30.
MBEMBE, Achille. Sair da grande noite: ensaio sobre a África descolonizada. Tradução de Fábio Ribeiro. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019.
MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. São Paulo: n‑1 edições, 2019.
MCCLINTOCK, Anne. Couro imperial: raça, gênero e sexualidade no combate colonial. Campinas. Ed. Unicamp, 2010.
MORRISON, Toni. A origem dos outros: seis ensaios sobre racismo e literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MORRISON, Toni. A fonte da autoestima. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
MUDIMBE, Valentin-Yves. A invenção da África: Gnose, filosofia e a ordem do conhecimento. Petrópolis: Vozes, 2019.
NGŨGĨ WA THIONG’O. Descolonizando a mente: a política linguística na literatura africana. São Paulo: Dublinense, 2025.
OYÈRÓNKẸ́ OYĚWÙMÍ. Mulheres africanas e feminismo: reflexões sobre a política da sororidade. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2023.
PADILHA, Laura Cavalcante. Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade na ficção africana de língua portuguesa. Niterói: EDUFF, 2007.
PAIVA, Felipe. Indomita Babel: Resistência, colonialismo e a escrita da História na África. Niterói: Eduff, 2017.
REGINALDO, Lucilene; FERREIRA, Roquinaldo. África, margens e oceanos: perspectivas de história social. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2021.
SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SOUZA, Ubiratã Roberto Bueno de; VECCHIA DA ROCHA E SILVA, Rejane. Literatura moçambicana e oralidade: uma postura crítica e uma fundamentação teórica. Scripta, Belo Horizonte, v. 19, n. 37, 2015, p. 97-119.
SOYINKA, Wole. Mito, literatura e o mundo africano. Tradução de Karen de Andrade. São Paulo: Edições Sesc/ Zahar, 2024.
VANSINA, Jan. A tradição oral e sua metodologia. In: KI-ZERBO, Joseph (org.). História geral da África. Vol. I: Metodologia e pré-história da África. Brasília: UNESCO, 2010. p. 139–167.
WISSENBACH, Maria Cristina Cortez. Dinâmicas históricas de um porto centro-africano: Ambriz e o Baixo Congo nos finais do tráfico atlântico de escravos (1840-1870). Revista de História, São Paulo, n. 172, jan./jun. 2015, p. 163-195.