Este curso propõe uma introdução às interseções entre a filologia e o universo dos jogos de interpretação de papéis (RPG), explorando como noções centrais da tradição filológica — crítica textual, história da escrita e transmissão de narrativas — iluminam a compreensão e a criação de mundos ficcionais em jogos de mesa e RPGs literários. Ao longo de quatro encontros, os participantes analisarão a evolução histórica do RPG e sua interseção com a filologia, refletirão sobre a criação de línguas fictícias (conlangs), analisarão sistemas de escrita inventados e discutirão a tradição textual de manuais de jogo e das narrativas orais em campanhas, sob a perspectiva da crítica textual e da história da língua. Ao final do curso, espera-se que os participantes sejam capazes de reconhecer fundamentos filológicos presentes na cultura do RPG e de aplicar noções básicas de crítica textual e de criação linguística em seus próprios projetos de worldbuilding.
Aula 1 -- Filologia e RPG: panorama histórico e pontos de contato
i. O que é filologia: da tradição clássica à filologia moderna.
ii. Breve história do RPG: das narrativas orais aos jogos de mesa contemporâneos.
iii. Pontos de contato entre filologia e RPG: texto, tradição e transmissão.
iv. A figura do mestre de jogo como narrador e “copista” de tradições.
v. Panorama dos principais sistemas de RPG e de suas fontes textuais.
Aula 2 -- Línguas construídas (conlangs) e criação linguística
i. O que são línguas construídas: histórico e tipologia.
ii. J.R.R. Tolkien e a “arte secreta” da invenção linguística.
iii. Exemplos de conlangs em RPGs: dracônico, élfico, anão e outras línguas de campanha.
iv. Fundamentos de morfologia e fonologia aplicados à criação de línguas.
v. Exercício prático: princípios básicos para a criação de uma língua fictícia.
Aula 3 -- Escrita, alfabetos e paleografia no universo do RPG
i. Sistemas de escrita reais e sua influência sobre alfabetos fictícios.
ii. Runas, cifras e escritas inventadas em RPGs e na literatura fantástica.
iii. Noções de paleografia aplicadas à leitura de artefatos e inscrições fictícias.
iv. A escrita como elemento narrativo e de ambientação (worldbuilding).
v. Exercício prático: criação de um sistema de escrita simples para uma campanha.
Aula 4 -- Tradição textual, variantes e transmissão narrativa
i. Noções de crítica textual: cópias, variantes e tradição manuscrita.
ii. Erratas, edições e variantes em manuais de RPG: um paralelo com a tradição de textos antigos.
iii. Transmissão oral em campanhas: da mesa de jogo ao registro escrito (actual play).
iv. Fandom, wikis e comunidades como espaços de transmissão e reelaboração textual.
v. Consolidação dos conteúdos e orientações para projetos de worldbuilding filológico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
AARSETH, Espen. Cybertext: Perspectives on Ergodic Literature. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1997.
AUROUX, Sylvain. A revolução tecnológica da gramatização. Campinas: Editora da Unicamp, 1992.
ARJORANTA, Jonne. Defining Role-Playing Games as Language Games. International Journal of Role-Playing, n. 5, 2015, p. 24-29.
CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
HUIZINGA, Johan. Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 2000.
PETERSON, David J. The Art of Language Invention. New York: Penguin Books, 2015.
SPINA, Segismundo. Introdução à edótica: crítica textual. São Paulo: Ars Poetica/Edusp, 1994.
TOLKIEN, J.R.R. A Secret Vice: Tolkien on Invented Languages. London: HarperCollins, 2016.

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